Maria de Lourdes de Lima Gazetta

Lurdinha, como é mais conhecida, nasceu em Itápolis, é a professora dos pequeninos e é a Pedra-Narrativa Infanto-Juvenil do livro Coletânea. Preocupada com a formação da geração nova, quer que ela viva seu mundo mágico, onde criança e jovem tem sua vez e voz. No linguajar matizante, que os educandos entendem, porque ainda não adquiriram a solidez adulta, ela diverte, instrui e educa.

Também fez parte de várias coletâneas e, atualmente, escreve semanalmente sua crônica no jornal "Folha de Itápolis" e participou ativamente do livro "Itápolis 150 de História", ainda não publicado.

Outras obras ainda não publicadas: Saga na Mantiqueira, O Ídolo de Barro e o Segredo da Montanha Azul.

O império dos Pequenos Gigantes

Coletânea

Participação: Fragmentos

Fragmentos

- Iara ser boba e ruim. Tudo bem! Guaraci guardar bom costume aprendido para dar a Sapoti - a bela virgem Tupiniquim. Ela ter lábios tão perfumados quanto o manacá do campo. Os cabelos tão macios quanto as plumas da juriti.

- Ser você muito engraçado Guaraci. deixa de contar papo e vamos apressar passo. A reunião dos espíritos da floresta está para iniciar, segundo meus cálculos.

Ladeando o rio que ficava próximo da aldeia, desvencilhando-se do emaranhado de cipós que opunham resistência à sua passagem em meio à selva densa, os dois pequenos silvícolas conseguiram atingir a grande clareira. sons estranhos como advindos de outra dimensão, lhes chegavam aos atentos e amedrontados ouvidos.

Em dado momento, a clareira envolve-se por brumas. Uma estranha sonolência toma conta dos dois pequenos, que ocultos atrás de uma grande moita de guaimbês, espreitavam.

- Guaraci, Iara sentir estranha sensação de fraqueza. O que estará acontecendo?

- Também eu, sentir esta mesma estranha sensação. Eu lhe disse, pequena Iara. Desafiar grandes espíritos da selva, ser muito perigoso.

- Não os estamos desafiando Guaraci. Apenas estamos tentando entrar em contato com eles para praticarmos boa ação. Lembre-se, temos dever de ajudar nosso povo.

(Extraído de "O Segredo da Montanha Azul")

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Uma corrente de ar um pouco mais forte fez com que a porta batesse despertando a enferma. Acorda sobressaltada. Ao perceber a presença do  filho chama-o para perto de si.

- José Eduardo, é você, meu filho?

- Sim mamãe. Sou eu. Sente-se melhor?

- Um pouco fraca, mas acho que já posso me levantar. Ajude-me, por favor, .

O garoto aproxima-se amparando a mãe. Apanha a muleta, ajeitando-lhe da melhor maneira possível.

- Mamãe, tentei fazer-lhe um café, mas não há mais pó na vasilha. Então, preparei-lhe uma água com açúcar. Dona Arminda deu-nos umas bolachinhas de nata. Pelo jeito, devem estar uma delícia. Venha comer alguma coisa.

- Claro, querido, claro. Comeremos juntos. Sentado em frente à mãe, Zequinha ficou observando-a. Era uma criatura de belos traços. Morena, grandes olhos castanhos e um sorriso meigo e triste. Os cabelos negros começavam a desfazer-se de um coque que os retinha e lhe desciam aos ombros em pequenas mechas.

Sentindo-se longamente observada, a mulher encarou o filho, perguntando-lhe:

- Ei, o que há agora? Por que me olha desta maneira? O garoto levanta-se e coloca-se atrás da cadeira da mãe, abraçando-lhe a cabe3ça e beijando-lhe os cabelos repetidas vezes.

- Não é justo, mamãe, não é justo o que a vida fez com a senhora. Eu gostaria de poder mudar tudo. Eu juro que um dia hei de mudar...

A mãe, enternecida, ergue as mãos e, alcançando o rosto do filho, acaricia-o repetidas vezes, dizendo-lhe:

- Meu amor, Deus tem sido bom comigo. Deixou-me, apesar de tudo, o mais caro presente que uma mulher possa almejar. - um filho como você. Sou feliz porque o tenho.

Oh! de casa! Licença! - Era Dona Arminda que acabara de chegar e quase pessoa da casa, ia empurrando a porta de entrada sem a menor cerimônia.

- Como está Carmem Sílvia? Sente-se melhor? Trouxe-lhe algumas coisas para o almoço. Espero que goste. Agora, se me dá licença, vou dar uma geral na sua casa. Isto aqui está precisando de um trato. Venha ajudar-me Zequinha. Já que não foi à aula, toca a faxina. Vamos, vá levando estes sacos de lixo até a rua.

O garoto obedeceu calado. Não houve uma palavra de protesto ou um gesto sequer de mau grado. Era realmente um bom menino. Notando Carmem Sílvia muito calada, a miga perguntou-lhe:

- Algo errado, Carmem? Você está tão distante!

- Muita coisa está errada, Arminda. Dói-me ver o meu filho passando por tantas privações. A maior dela é a falta que faz a figura do pai. Meu Deus, tudo poderia ser bem diferente...

(Extraído de: " O Ídolo de Barro")

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Heitor agarra a jovem, que debalde tenta desvencilhar-se das mão pesadas e grosseira que lhe ferem as carnes e o seu orgulho.

- Vamos garota, muita mulheres suspiram por esta oportunidade que você está tendo. Estar nos braços de Heitor Leme, mesmo que seja por apenas alguns segundos...

- Não ouse tocar-me seu verme nojento. Eu o mataria, se você se atrevesse a tanto!

- Ora, como é brava. Adoro feras selvagens e juro que a dominarei belezinha! Ato contínuo, Heitor agarrando as veste de Albertina com ambas as mãos, as faz em tiras. A menina agride-o com unhas e dentes e já está quase por desfalecer quando o sibilo de um chicote, afasta seu agressor.

Pego de surpresa, Heitor crispa as mãos juntando-as num gesto de profundo rancor. Suas costas, atingidas pelo chicote justiceiro, queima-lhe até as profundezas da alma. Volta-se lentamente, com o olhar carregado de ódio, encontrando o rosto viril e aristocrático de Diogo, em cuja mão ainda permanece o chicote que o atingira.

Heitor coloca-se em pé. Os dois homens encaram-se com altivez e um certo orgulho.

Olhando para o rival com expressão sarcástica, Heitor cospe-lhe na face. Mal terminado o ato imundo, já o punho forte de Diogo acerta-lhe o queixo, quase colocando-o a nocaute.

Com um misto de vergonha e pavor estampados em seu rosto., Albertina assiste à luta dos dois homens, que engalfinhados se sucedem numa troca contínua e interminável de socos, golpes e pontapés. Sentindo a superioridade do inimigo, Heitor retira rápido um punhal da polaina e incontinente parte parte sobre Diogo, que alertado por Albertina, rola sobre a relva, escapando ao golpe mortal que lhe seria desferido.

(Extraído de: "A Saga na Mantiqueira")

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O homem espreita os próprios pensamentos. Dono da sua vontade e das suas conjeturas.

No terreiro, apenas aclareado pelos últimos raios lunares e pela chama mortiça da lamparina de querosene que da cozinha lhe empresta a pouca claridade, um galo matreiro e conquistador, arremessa umas investidas amorosas par o lado e de uma velha galinha carijó - a mais antiga que ali existe. Esta, lisonjeada, deixa-se ficar ao lado do convencido, ouvindo as juras de amor que este tem pra lhe dizer.

Sá Aninha dá os últimos tratos nas marmitas de comida que serão levadas para a roça. Dentro de poucos minutos, estará ganhando caminho ao lado do velho pai para mais um dia de labutas.

 (Extraído de: "O Amor é uma Nota Musical")

Vamos Colher os Frutos da Amizade

A fonte secou...

A árvore tomba ao golpe do machado. "SÊ COMO O SÂNDALO, QUE PERFUMA O MACHADO QUE O FERE".

A areia quente escaldante do deserto queima-lhe os pés.

A seringa e a a agulha infectadas numa assembléia de toxicômanos espalham as sementes da AIDS por toda humanidade.

O novo "PACOTE ECONÔMICO, PLANO VERÃO", espreitado com desconfiança, muita incredulidade pelo sofrido povo brasileiro...

Será que vai dar certo?

Os cães atacam os agentes do correio.

Um feto encontrado no lixo.

O aborto é vergonhosamente comercializado a fim de facilitar a pesquisa científica.

A criança brasileira é sequestrada e vendida a outros países. Quem sabe se não de pleno acordo com seus pais porque os seus salários  mal davam para comprar dois quilos de batatas.

A decepção dos pais adotivos porque tiveram que devolver á mãe arrependida de ato cometido num momento de desespero, o filho que já haviam aprendido a amar como se fora parte de suas entradas.

O que dizer das guerras? Esta aberração que são as armas nucleares destruindo natureza, sonhos e as famílias.

O que dizer do olhar aterrorizado da criança, paralisada diante dos escombros daquilo que um dia foi seu lar e dos cadáveres esfacelados de seus pais?

Da sua angústia, da sua insegurança ao ser conduzida por mãos estranhas? Talvez, para um país que não é o seu. Será obrigada a aprender a falar uma língua que não é a sua. Adotar costumes que não foram os ensinados por seus pais.

Anjos inocente, vítimas fatais da ambição dos homens centauros. Animais do nosso século.

Monstros pré-históricos, vaidosos, metidos e inteligentes, mas que na verdade, não passam de porcos cobertos com a "LAMA DO PODER".

Volte ao passado, trogloditas da era espacial.

Contemple uma praia... Calma... Tranquila...

Procure encontrar nela uma figura esquia, com longos cabelos, com uns olhos muito meigos, talvez azuis. Aproxime-se... procure ouvir o que esta figura está dizendo a alguns humildes pescadores que infrutiferamente lançam suas redes., tentando garantir o peixe nosso de cada dia. Vamos, esforce-se um pouco mais e você, com certeza, conseguirá ouvir:

"UM NOVO MANDAMENTO VOS DOU: QUE VOS AMEI UNS AOS OUTROS COMO EU VOS AMEI".

"CONHECEREIS A VERDADE E A VERDADE VOS LIBERTARÁ".

"CREDE EM MIM E SEREIS SALVO"

"EU SOU A SUA FORÇA, O SEU ESCUDO, A SUA FORTALEZA. AQUELE QUE CRÊ EM MIM, AINDA QUE ESTEJA MORTO, VIVERÁ".

Porém, se depois de tudo, a sua alma não se sentir tocada pelas divinas palavras, se o maná não for suficiente para saciar a sua fome de cobiça, então, não estranharia se a meiga figura da praia, voltasse lentamente s divina cabeça para a sua direção e, fitando dentro dos seus, os profundos olhos azuis, lançasse num tom calmo e muito sério o grande desafio:

 "QUEM ÉS TU, PÓ? VERME, PARA UFANAR-SE DE ALGUM PODER? APRENDE A OBEDECER, SAÍ DE MINHA DIVINDADE FIZ-ME O ÚLTIMO DE TODOS PARA QUE VENCESSES COM A MINHA HUMILDADE, A TUA SOBERBA. ACASO, SERIAS CAPAZ DE IMPOR REGRAS AO MAR PARA QUE AS ÁGUAS NÃO TRANSPUSESSEM OS SEUS LIMITES? CONSEGUIRIAS TRAÇAR O HORIZONTE NA SUPERFÍCIE DO ABISMO? APRENDE, POIS, A OBEDECER, TERRA E LIMO. e, SÓ ASSIM SERÁS FELIZ.

E a paz se fez! Sonho? Esperança? Loucura?

 

A fonte voltou a jorrar.

A areia esfriou.

Descobriram o antídoto que acaba com a imunodeficiência adquirida.

O pacote econômico deu certo. A inflação zerou.

Os cães vêm lamber as mãos do agente do correio.

O feto é cuidadosamente acompanhado no ventre materno até o seu nascimento. O aborto foi proibido.

A criança pode correr livremente pelos parques salvos da destruição pelos ecologistas.

Os pais sem filhos adotam os órfãos, dando-lhes uma família.

As guerras deixaram de existir. Foi firmado um tratado de paz entre as nações.

A energia nuclear foi usada na descoberta do remédio para a cura definitiva do câncer.

Os trogloditas evoluíram.

A árvore, impiedosamente tombada pelo machado assassino, firmou suas raízes e já começou a produzir.

Vamos colher os frutos da amizade?

OS FRUTOS NÃO TARDAM A VIR...

Meu Aluno X

Teimoso carimbava em meu rosto, sua marca registrada.

Um beijo mal cheiroso e lambuzado... Uma busca infinita, quase sedenta de afeto...

Aluno terrível, de maus modos, mas que muito esperava de mim.

Bebia os ensinamentos que eu lhe passava. Ouras vezes, desdenhava os  mesmos ensinamentos. Por todos os meios, tentava entrar na concorrência de minha família e disputar com ela o meu afeto.

A flor sobre a mesa, nas mão o apagador limpando a não mais poder o quadro negro para que nele eu pudesse passar as atividades do dia... O bilhetinho entregue sorrateiramente para que os colegas não percebessem e dele zombassem.

- Tia, eu te amo!

Sinto uma angústia muito grande... Uma sensação ruim que aperta o coração e que dói.

Sinto medo, tristeza, uma espécie de frustração. pergunto-me o porquê  da estranha sensação. Procuro sintonizar-me com o mundo do pequeno se que tenho em minha frente.

Criança querida. Sem você a minha vida não teria sentido.

Amo-te acima dos salários mal pagos, das fadigas, das decepções, das descrenças de que "daquele mato não sai coelho".

Não acreditam que você seja capaz de superar limitações. Não acreditam que aquela criança pálida de sorriso amarelo e desdentado, possa a vir a governar a nação inteira.

Mas eu sim! Creio na sua capacidade. No seu potencial muitas vezes mal manipulado. Na sua força, no momento "h" de sua existência.

Acredito sobretudo na força do amor que o transformará de pequenina semente em enorme e frondosa árvore em cuja sombra abrigará todo o seu país.

Aluno esquisito, intranquilo, desatento, eu acredito em você. Eu acredito...

Acredito na sobrecarga  da sua vida. No desconforto da sua moradia. Nas gentes apinhadas em seu quarto, nas relações sexuais que você é obrigado a presenciar.

Porquê? Você é mau e as quer ver?

Seus pais são negligentes e esqueceram de fechar a porta?

Não!

Seu quarto nem mesmo porta possui. A sociedade, não sei se ela, ou todo um sistema, negaram-lhe o direito de uma vida mais digna.

É assim, você e todos os seus irmãos crescem à mercê do acaso. Muito cedo ouvem as imprecações, os murmúrios noturnos, as reclamações que os míseros tostões mal dão para as despesas menores. Não se cogita em salários, porque seus pais - bóias frias - nem aos menos salários possuem... Ouvem os gemidos de sua mão, tendo seus irmãos. Com tantas fraudes nas instituições que cuidam da saúde, ela não pudera tê-los em uma maternidade... Não havia leitos disponíveis.

De manhã, não se assenta ao redor de uma mesa para o desjejum. Assentar-se para quê? Que iria fazer assentando-se ao redor de uma mesa vazia?

Engole o "chafé", pois o pó mal dava para uma coada e lá se vai para a rua.

, ainda ruminando os retalhos de uma noite mal dormida..

Vença, meu aluno X. Mostre a todo este sistema que hoje o espezinha, a força de sua fibra...

Eu acredito, sim, que você possa vir o PRESIDENTE DA REPÚBLICA.

 

Restos do Passado

Imenso quintal da minha infância.

Tímida, surgia entre as flores a moradia.

Dois degraus à frente e o mimo roxo.

pela alameda de pedras irregulares, meus pés incansáveis corriam.

onde está o tronco rude?

Resto mortal de uma árvore destruída.

Nele eu me alçava à liberdade. O portão se abria.

Onde, as esporinhas, o campo-alegre e as roseiras? E o manacá?

Onde está?

Violetas ocultas na grama...

As mãos empunhando uma tesoura, não mais a vejo.

- Venha, menina! Vamos colher rosas para Santa Izildinha.

A voz perdeu-se no infinito.

O limoeiro já não existe.

O milharal, com as bonecas de tentadoras cabeleiras, princesas loiras, ruivas e morenas, deliciavam os cobiçosos olhos da menina. - Também ela murcharam e perderam a cor.

Não existe mais a parreira, nem a sombra da mangueira - as deliciosas mangas bourbons.

No passado ficou o cajueiro.

Sobre o muro, o galho alçado com os seus frutos lindos sazonados.

Era da casa ao lado que ele vinha.

Em meus ouvidos, o monólogo ainda paira.

A menina solitária de cócoras fala com:

as formigas laboriosas e segue-lhes as trilhas.

Bonecas de milho viram heroínas,

com folhas de mandioca vestidas a rigor,

sabugos de milho transformados em bois...

o cãozinho Campeão; peralta, negro, de ventre estufado de tanto comer todo o

achado - "o avestruz" - e que corria... corria... corria mais não poder.

Que susto! O monólogo fora interrompido por um graveto que lá do alto vinha...

os olhos buscam ao redor... e, a resposta é nada.

O monólogo continua. Outro graveto.. outro susto e uma gargalhada o acompanha.

Realmente, fora divertido...

Ao seu lado a amiga saltara o muro.

Agora sim! O monólogo vira diálogo.

- Deque você brinca?

- Estou preparando uma grande festa de casamento. Você, Vilma, quer brincar comigo?

- Se você explicar...

- É assim... O príncipe encantado deixa de ser sapo e casa-se com a princesa fada... Vai acontecer uma festa que durará vários dias...

- Ótimo!

- Posso ser a madrinha da noiva?

- Pode! Ela só convidou gente boa...

Aos fundos, uma escadaria não condizente com o tamanho da casa, levava à cozinha

Do seu topo, uma vez ao ano, a festa aviatória eu vislumbrava.

Binóculos, que o bondoso tio emprestava... era tão lindo ver os pára-quedas caindo.

Nossa pequena situava-se numa das colinas. no vale, a cidade possuía telhados  baixos. Arranha-céus, não havia.

na outra colina o campo aviatório tremia ao insano ruído dos motores dos aviões.

Uma voz imperiosa se fazia ouvir:

- Terminou a Brincadeira. hora do banho. Criança suja não janta e não vai pra cama. E a velha vasca ao lado da escadaria, transformava-se em banheira.

Não havia bálsamos, sais ou perfumes, mas duas mãos vigorosas que me esfregava as sujeiras.

O sabonete era comum, mas nada comum, eu creio, era tudo quanto na minha vida acontecia...

Mão calosas trançavam-me os negros cabelos. mãos que eu amava...

nestes momentos, eu era feliz e não percebia.

De barriga cheia, dentes escovados, o momento esperado enfim...

=- Pode pegar o banquinho e ficar sentada do lado de fora da rua. Mas... de lá não saia.

Era válido! Como formigas atraídas pelo cheiro do mel, vinham até mim as amigas.

A Marisa, a Beth, a Eloísa e a Vilminha. A mesma traquinas dos gravetinhos.

As brincadeiras sucediam...

- Que mês?

- Janeiro.

Que mês?

- Fevereiro.

E, assim, até encontrar a chave do segredo.

- Hora de entrar! meu general comandava.

Nada de televisão, vídeo game ou brinquedos de corda... nada disso havia.

A cabeça tomba... é o sono que chega.

- Dorme comigo até o tio chegar. Depois eu levo você pra sua cama.

Meu Deus! Em qual dimensão estão ocultos meus fantasmas?

Vou dormir... como nos tempos de menina vou deixar que a minha cabeça tombe...

Talvez, em sonhos, eu os possa encontrar.

Conversa de Poetas

Ontem, guardei no vaso do meu coração as rosas que me oferecestes. Eram lindas... à deusa Vênus eu as ofertei. Pedi-lhe que jamais deixasse fenecer o amor que existe entre mim e ti.

- Rosas vos dei para que realmente a certeza tivésseis, do grande afeto que nutro por vós.

eram vermelhas, vós lembrais?

Vermelho vivo!

Vermelho carmim!

Descobriste acaso, o segredo das rosas?

Por que mensageiam o amor, a ternura? Donde vem as primícias de sua magia?

Que poder invisível elas tem em transmitir os segredos do coração?

- Porque são puras, eu creio... são diáfanas, não guardam em seu cálice nenhuma sordidez.

- Rosas vermelhas simbolizam o amor... mas por que vermelho? Dizei-me o porquê...

- Talvez se assemelhem ao fogo, lavas vivas de um vulcão.

O furor com que elas saem é tamanho. Assustam, apavoram, fazem correr inteiras povoações. O fogo queima, dói, incomoda... é visível à distância. Acaso também vós, conseguis ocultar o fogo de uma paixão?

- Tendes razão! Está para nascer o ser mortal que com facas, punhais, espadas ou mísseis destrua a flecha cupídica que teima cravar-se em um coração.

- E, então, agora compreendestes a linguagem das rosas?

Das rosas vermelhas, vermelho carmim?

- Sim, agora eu entendo. Porque o0 furor deste vulcão, desumano, destruidor... insaciável, também se encontra dentro de mim.

As violetas singelas, se ocultam na grama. Perfumam sem se fazer notar... Mas as rosas vermelhas...

Ah! as rosas... Cheiram, inflamam... Não existe que não as possa notar.

(Extraído de: "Poesias por Acaso")